Numa decisão que abala o cenário eleitoral fluminense, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) declarou inelegível o ex-governador Cláudio Castro, governador do Rio de Janeiro por oito anos. A sentença, proferida na sessão de 24 de março de 2026, proíbe Castro de disputar qualquer pleito até 2030. O veredito considera práticas de abuso de poder político e econômico durante as eleições de 2022.
O julgamento não foi unânime, gerando reações imediatas em Brasília e no Rio. Cinco ministros votaram pela punição contra dois que entenderam não haver provas suficientes para cassação. O caso envolve a chamada "máquina pública", com acusações de uso indevido de servidores para fins eleitorais. Para muitos observadores, esse é um dos precedentes mais fortes nos últimos anos sobre o uso da administração pública em campanhas.
O Desfecho no Plenário do TSE
A sessão era aguardada com apreensão. A relatora, Isabel Gallotti, defendeu a cassação do diploma e a inelegibilidade desde o início. Ela apontou que as irregularidades foram intencionais e sistemáticas. Quando o julgamento voltou a acontecer após uma pausa solicitada pelo ministro Nunes Marques, o placar inicial já parecia favorável à acusação.
A coisa ficou tensa quando Nunes Marques apresentou seu voto divergente. Ele argumentou que o impacto negativo nas campanhas dos adversários não estava comprovado além da dúvida razoável. Mas a maioria prevaleceu. O Ministério Público Eleitoral (MPE) tinha pedido a reversão de uma decisão anterior do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro, que havia absolvido Castro em maio de 2024.
Eleições Gerais de 2022Rio de Janeiro foi o epicentro das acusações. Segundo a acusação, o então governador utilizou sua máquina administrativa para impulsionar sua própria campanha de reeleição. A justiça eleitoral viu nessa conduta uma violação grave da igualdade de condições entre candidatos.
Temporários e Irregularidades na UERJ
O cerne da denúncia gira em torno de contratações suspeitas. Documentos analisados pelo tribunal indicavam vínculos entre nomeações em fundações estaduais e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e o momento pré-eleitoral. Funcionários públicos temporários passaram a atuar como cabos eleitorais, segundo a narrativa do MPE.
Especialistas em direito eleitoral explicam que isso distorceu a concorrência. Imagine ter acesso privilegiado a listas de eleitores ou usar verbas públicas para fazer propaganda indireta. Isso cria um desequilíbrio que a lei tenta evitar. Além de Castro, outros nomes aparecem no processo, incluindo o deputado estadual Rodrigo Bacellar, cujo mandato também foi cassado na mesma ocasião.
Renúncia Estratégica e Rumo ao Senado
Antes mesmo do gavela bater, Castro saiu do governo. Em 23 de março, um dia antes da decisão final, o ex-governador renunciou ao cargo. A manobra visava cumprir a Lei de Incompatibilização Eleitoral, exigindo afastamento de seis meses antes da disputa de outro cargo. Agora, ele se declara pré-candidato ao Senado Federal.
Essa saída deixa um vácuo administrativo no estado enquanto retotalizações de votos acontecem para preencher as vagas de deputados estaduais vacadas. A nota oficial de Castro promete luta jurídica até o fim. "Pretendo recorrer e lutar até a última instância", disse ele, sem mencionar prazos específicos. Juridicamente, ele ainda pode se candidatar às eleições de outubro de 2026 com o status 'sub judice', mas assumir o cargo dependerá do trânsito em julgado.
Impacto Jurídico e Futuro Político
O especialista Amilton Augusto destaca a complexidade do período. Ele aponta que ser candidato diferente de assumir o mandato é uma distinção crucial na legislação brasileira atual. Se os recursos forem negados, a porta para 2030 estará fechada. Caso contrário, o caminho do Palácio Tiradentes ou do Congresso Nacional permanece aberto teoricamente.
A decisão reflete um endurecimento do TSE quanto ao uso da máquina pública. Nos últimos anos, tribunais regionais têm absolvido com mais frequência, transferindo para o TSE as decisões mais duras. Essa centralização de poder decisório sugere uma mudança na interpretação das leis eleitorais, focando menos na prova material individual e mais no dano ao sistema democrático coletivo.
Perguntas Frequentes
Cláudio Castro pode se candidatar ao Senado agora?
Sim, ele pode se registrar como candidato enquanto o processo estiver em fase recursal. No entanto, a posse no cargo só será permitida se a Justiça confirmar sua inocência ou cancelar a inelegibilidade após recurso.
Qual é o prazo exato da inelegibilidade aplicada?
A punição dura oito anos contados a partir das eleições de 2022. Isso significa que Castro só poderá retornar à vida política ativa e buscar cargos eletivos a partir do pleito de 2030, salvo revogação judicial.
O que acontece com as cadeiras de deputado estaduais?
O TSE determinou a realização de eleições indiretas para suprir as vagas deixadas pelos mandatos cassados. Os votos computados para Rodrigo Bacellar devem ser excluídos da totalização, garantindo a apuração correta dos representantes legítimos.
Quais foram os motivos principais para a condenação?
A maioria identificou abuso de poder político e econômico. O foco foi o uso de contratos temporários em estatais como a UERJ e fundações para compor a base eleitoral, criando vantagem indevida durante a campanha de 2022.