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IV Domingo do Advento – Ano A PDF Imprimir E-mail
Ano A
Dom, 24 de Maio de 2009 01:39

 

Is 7,10-14
Sl 23
Rm 1,1-7
Mt 1,18-24

                Estamos às portas do Santo Natal. Eis o que vamos contemplar nos ritos, palavras e gestos da sagrada liturgia: o Verbo eterno do Pai, o Filho imenso, infinito, existente antes dos séculos, fez-se homem, fez-se criatura, fez-se pequeno e veio habitar

entre nós. Sua vinda ao mundo salvou o mundo, elevou toda a natureza, toda a criação. A sua bendita Encarnação lavou o pecado do mundo e deu vida divina a todo o universo! Mas, atenção: este acontecimento imenso, fundamental para a humanidade e para toda a criação, a Palavra de Deus hoje nos diz que passou pela vida simples e humilde de um jovem carpinteiro e de uma pobre menina moça prometida em casamento numa aldeia perdida das montanhas da Galiléia. O Deus infinito dobrou-se, inclinou-se amorosamente sobre a pequena e pobre realidade humana para aí fazer irromper o seu plano de amor. Acompanhemos piedosamente o Evangelho deste Quarto Domingo do Advento.

 

 

                São Mateus diz que a Mãe de Jesus “estava prometida em casamento a José, e, antes de viverem juntos ela ficou grávida pela ação do Espírito Santo”. As palavras usadas pelo Evangelista são simples, mas escondem uma realidade imensa, misteriosa, inaudita. Pensemos em José e Maria, ainda jovens. Eles certamente se amavam; como todo casal piedoso daquela época pensavam em ter filhos – os filhos eram considerados uma bênção de Deus. Mas, eis que antes de viverem juntos, a Virgem se acha grávida por obra do Espírito Santo! Deus entra silenciosamente na vida daquele casalzinho. Nós sabemos, pelo Evangelho de São Lucas, que Maria disse “sim”, que Maria acreditou, que Maria deixou que Deus fosse Deus em sua vida: “Eu sou a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1,38) De repente, eis que uma vida de família, que tinha tudo para ser pacata e serena, viu-se agitada por uma tempestade. Por um lado, a Virgem diz “sim” a Deus e, sem saber o que explicar ou como explicar ao noivo, cala-se, abandonando-se confiantemente nas mãos do Senhor. Por outro lado, José sabe que o aquele filho não é seu; não compreende como Maria poderia ter feito tal coisa com ele: ter-lhe-ia sido infiel? E, no entanto, não ousa difamar a noiva. Resolve deixá-la secretamente. Quanta dor, quanta dúvida, quanto silêncio: silêncio de Maria, que não tem o que dizer nem como explicar; silêncio de José que, na dor, não sabe o que perguntar à noiva; silêncio de Deus que, pacientemente, vai tecendo a sua história de salvação na nossa pobre história humana. E, então, como fizera antes com a Virgem, Deus agora dirige sua palavra a José: “José, filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo de seus pecados”. Atenção aos detalhes! O Anjo chama José de “filho de Davi”. É pelo humilde carpinteiro que Jesus será descendente de Davi. Se José dissesse “não”, Jesus não poderia ser o Messias, Filho de Davi! Note-se que é José quem deve dar o nome ao Menino, reconhecendo-o como seu filho. Note-se ainda o nome do Menino: Jesus, isto é, “o Senhor salva”! Deus, humildemente, revela seu plano a José e, depois de pedir o “sim” de Maria, suplica e espera o “sim” de José. E, como Maria, José crê, José se abre para Deus em sua vida, José mostra-se disposto a abandonar seus planos para abraçar os de Deus, José diz “sim”: “Quando acordou, José fez conforme o Anjo do Senhor havia mandado, e aceitou sua esposa!”

                Eis! Adeus, para aquele casal, o sonho de uma vida tranqüila! Adeus filhos nascidos da união dos dois! Agora, iriam viver somente para aquele Presente que o Senhor lhes havia dado, para a Missão que lhes tinha confiado... O plano de Deus passa pela vida humilde daquele casal. Para que São Paulo pudesse dizer hoje na Epístola aos Romanos que é “apóstolo por vocação, escolhido para o Evangelho... que diz respeito ao Filho de Deus, descendente de Davi segundo a carne”, foi necessária a coragem generosa da Virgem Maria e o sim pobre e cheio de solicitude do jovem José. Para que a profecia de Isaías, que ouvimos na primeira leitura, fosse concretizada, foi necessário que aquele jovem casal enxergasse Deus e seu plano de amor nas vicissitudes de sua vida humilde e pobre!

                Também conosco é assim! O Senhor está presente no mundo. Aquele que veio pela sua bendita Encarnação, nunca mais nos deixou. Na potência do seu Espírito Santo, ele se faz presente nos irmãos, nos acontecimentos, na sua Palavra e, sobretudo nos sacramentos. Sabemos reconhecê-lo? Abrimo-nos aos seus apelos? E na nossa vida? Essa vida miúda, como a de José e Maria, será que reconhecemos que ela é cheia da presença e dos apelos do Senhor? No Advento, a Igreja não se cansa de repetir o apelo de Isaías profeta: “Céus, deixai cair o orvalho; nuvens, chovei o Justo; abra-se a terra e brote a Salvador!” (Is 45,8). É interessante este apelo: a salvação choverá do céu, vem de Deus, é dom, é graça... mas, por outro lado, ela brota da terra, da terra deste mundo ferido e cansado, da terra da nossa vida.

                Supliquemos à Virgem Maria e a São José que intercedam por nós, para que sejamos atentos em reconhecer o Senhor nas estradas de nossa existência e generosos em corresponder aos seus apelos, como o sagrado Casal de Nazaré. Assim fazendo e assim vivendo, experimentaremos aquilo que o Carpinteiro e sua santa Esposa experimentaram: a presença terna e suave de Jesus no dia-a-dia humilde de nossa vida.

 

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                Caríssimos Irmãos, saudando os cristãos de Roma, São Paulo, na segunda leitura deste último Domingo do sagrado Advento, apresenta o Messias prometido a Israel, o Salvador de toda a humanidade, Jesus nosso Senhor. O Apóstolo nos fala do Evangelho de Deus, isto é, a Boa Notícia da salvação para toda a humanidade. Esta salvação – diz-nos o texto da leitura – foi trazida por Jesus Cristo, prometido pelos profetas de Israel e nascido de Davi segundo a carne, feito homem como nós, humano entre os humanos, para dar à humanidade e à toda a criação a sua vida divina. Esse mesmo Jesus, o Messias, o Cristo de Deus, morto como homem, foi autenticado, isto é, foi ressuscitado pelo Poder de Deus, que é o Santo Espírito. Por ele, o Vencedor da Morte, o Senhor Cristo, toda a humanidade pode ser salva, desde que nele creia e no seu santo nome seja batizada, para receber o seu Espírito Santo. É em Jesus, vindo do povo de Israel, vindo para cumprir as promessas de Deus, vindo para ser salvador de toda a humanidade, que nós aqui presentes, como os romanos a quem o Apóstolo escrevia, somos chamados à fé e a receber a salvação!

 

                Com efeito, amados em Cristo, neste Quarto Domingo do Advento, agora que o santo Natal já se faz próximo, somos chamados a contemplar na fé a grandeza do plano de salvação de Deus, já anunciado no Antigo Testamento. Recordai: Deus chamou nosso pai Abraão e prometeu fazer dele um povo; desse povo viria a bênção para todos os povos. Essa bênção é Jesus, o descendente de Abraão, do antigo povo da Antiga Aliança. Deus fizera o velho Jacó compreender que de Judá viria aquele que dominaria os povos e reinaria para sempre. Esse rei da tribo de Judá é Jesus, que se assenta à direita do Pai para sempre. Inspirado pelo Senhor Deus, Moisés prometera que viria um Profeta como ele, que guiaria Israel, dando-lhe a definitiva Lei. Esse profeta é Jesus, que deu as Bem-aventuranças e o dom do Espírito de Amor, lei perene nos nossos corações; Jesus, que nos faz atravessar as águas não mais do Mar Vermelho, mas do Batismo e, num lugar deserto, deu de comer ao povo e nos dá um alimento maior que o maná, seu Corpo dado para a vida do mundo. Deus prometera a Davi que nunca faltaria um descendente seu no trono de Israel. Esse rei messiânico, davídico, é Jesus, que reina para sempre sobre o Novo Israel, que é a Igreja, novo povo de Deus. Deus anunciara pelos profetas que uma virgem conceberia e virgem daria à luz, que quando a parturiente desse à luz um descendente de Davi, o Messias, a sorte de Israel mudaria; prometeu que, com a vinda do Messias, descendente de Davi, uma nova aliança seria selada, aliança no Espírito, aliança que seria impressa no coração, aliança que abarcaria todos os povos! Tudo isto Deus prometera; tudo isso cumpriu-se naquele que é o Amém de Deus, a Testemunha Fiel e Verdadeira, o definitivo Sim de Deus para nós: Jesus, nosso Senhor, concebido e nascido de Maria Virgem! Assim, irmãos meus, somos chamados a admirar, agradecidos, a grandiosidade do amor de Deus para conosco e com toda a humanidade e sua fidelidade invencível! – Ah, Senhor! Damos-te graças, porque fizeste muito mais que prometeste! No teu Jesus, todas as tuas promessas se cumpriram de modo superabundante, muito mais admiravelmente que aquilo que poderíamos imaginar! Contemplando o modo como diriges a história da salvação, vendo como guiaste o teu povo de Israel, que podemos dizer-te, senão que confiamos em ti, que desejamos entregar nossa vida, nossa destino, nas tuas mãos benditas! Tu guias nossa existência, tu diriges amorosa, fiel e firmemente os caminhos e o destino da Igreja do teu Filho, nossa Mãe católica, teu povo santo! Senhor da história, Deus fiel, bendito sejas tu! Que a próxima solenidade do Santo Natal, nos faça admirar, contemplar, celebrar, experimentar a tua invencível fidelidade!

 

                Mas, caríssimos no Senhor, estejamos atentos a um detalhe: toda a fidelidade do Senhor, todo o cumprimento de suas promessas, passaram pelo sim da humanidade! Para que o Salvador se fizesse homem e salvasse a humanidade, precisou do sim da Virgem Maria. Para que Jesus fosse reconhecido como filho de Davi e, portanto, Messias de Israel, necessitou do sim de José, filho de Davi, pobre carpinteiro de Nazaré. Que mistério tão grande! Um Deus que de nada precisa, necessita do nosso sim, da nossa cooperação, do nosso amor que se abra para ele! Sim, caríssimos, o Senhor não entra no mundo a não ser entrando no nosso coração! Se hoje temos tanta dificuldade em ver os sinais, os rastros de Deus, não seria porque fechamos para ele o nosso coração, a nossa vida, os nossos projetos? Bendita Maria de Nazaré, menina piedosa, corajosa e fiel, que não teme em colocar toda a sua existência à disposição do seu Deus! Bendito José, casto esposo da Virgem, que não se nega a renunciar ter filhos de seu sangue, para colocar-se totalmente a serviço de Jesus e de sua Maria!

 

                Somos cristãos num tempo de procura desenfreada de autonomia, de louco desejo de felicidade a qualquer custo e de qualquer maneira; pensamos que nossa realização encontra-se na satisfação de nossos desejos e necessidades e que seremos plenos quando nos empanturrarmos de bens e prazeres e planos realizados... Olhai bem, irmãos meus, que nunca houve tanta solidão e depressão na humanidade como atualmente; nunca houve tantas pessoas sem um sentido para ávida como nos nossos dias; nunca o homem encontrou-se tão despreparado para a morte e tão ignorante e confuso ante o sentido da vida como agora! Cristãos, irmãos de fé e de esperança em Jesus, nós não podemos pensar e viver e falar e agir como o mundo que nos circunda! O Senhor nos chama, o Senhor nos impele, o Senhor nos ordena a que vivamos como quem sabe que nossa vida neste mundo é caminho, é passagem, é semente de eternidade! O Senhor espera de nós o testemunho de uma fé realmente madura e comprometida com ele, uma fé que de verdade nos faz levar a sério a sua santa Palavra, os seus apelos na nossa vida! No Salmo responsorial deste Domingo cantamos: “O rei da glória é o Senhor onipotente; abri as portas para que ele possa entrar!” Cremos de verdade nisto? Estamos dispostos a abrir das portas do nosso coração, da nossa vida, do nosso trabalho, das nossas economias, dos nossos amores, dos nossos afetos, das nossas relações sociais e familiares? Estamos dispostos a deixar de verdade o Cristo entrar na nossa vida, como entrou na vida de Maria Santíssima e de São José? Pensemos bem, caríssimos! Chega de cristãos frios! Chega de um cristianismo indiferente aos apelos de Deus! Chega daquela ilusão, daquela mentira na boca de alguns pregadores, que defendem cristãos mundanos! O mundo precisa do nosso testemunho, da nossa adesão radical ao Senhor, da nossa coerência, da nossa busca de santidade! Cristo nos iluminou, Cristo fez de nós a luz do mundo, o olho da criação! Se o olho é cego, quão grande será a escuridão para toda a humanidade!

 

                Que neste Natal, nos convertamos novamente Àquele que vem, Àquele que é o sim fiel e definitivo de Deus! Que abramos, para em par, nossas portas todas para que entre o Rei da Glória. Que intercedam por nós Maria e José e todos os justos do Antigo Testamento, que pelo Messias esperaram, suplicaram, sofreram e morreram. Amém.

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Última atualização em Sáb, 21 de Dezembro de 2013 18:03
 

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