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Pensamentos sobre o Sacerdócio PDF Imprimir E-mail
Doutrina Católica
Dom, 10 de Maio de 2009 20:31

Côn. Henrique Soares da Costa 

A segunda leitura da Missa deste XXX Domingo Comum do Ano B (Hb 5,1-6) inspirou-me algumas meditações sobre o sacerdócio. Gostaria de partilhá-las com você, meu paciente leitor.

 

O nosso único Sacerdote é Cristo Jesus. Ele, fazendo-se homem, tornou-se nosso Pontífice (nossa ponte) e Mediador. Como Deus e homem verdadeiro, ele é a ligação entre o Pai e a humanidade. Portanto, é a partir do Sacerdote perfeito e único do Novo Testamento que temos de compreender tanto o sacerdócio do Antigo quanto aquele sacerdócio ministerial presente na Igreja desde as suas origens. 

Antes de entrar na meditação do texto de Hebreus gostaria de recordar-lhe uma coisa: no Antigo Testamento Israel é um povo todo sacerdotal. No meio das nações e em nome de todas as nações, o povo santo de Deus deveria viver uma vida prática e cultual que fosse um verdadeiro sacrifício de louvor a Deus em benefício de todos os povos da terra (cf. Ex 19,5-6; Is 43,20-21). Desde o início era esta a bênção e a missão de Israel, povo vindo de Abraão: “Por ti todos os clãs da terra serão abençoados” (Gn 12,3). Por isso Deus afirma tantas vezes ao povo: Sois uma nação santa, sois um povo consagrado a mim, eu só a vós escolhi dentre todos os povos, sois um reino de sacerdotes. No entanto, no meio deste povo todo sacerdotal havia uma tribo (de Levi) e, nesta tribo, um clã (de Aarão) especialmente responsáveis pelo culto. Pelo ministério da tribo de Levi e do clã de Aarão o povo sacerdotal podia exercitar de fato o seu sacerdócio. Assim, o sacerdócio dos levitas e dos descendentes de Aarão em nada se opunha ao sacerdócio do povo de Israel: um estava em função do outro. 

Ora, esta mesmíssima estrutura é encontrada no Novo Testamento: Jesus é o único Sacerdote, o Sacerdote perfeito e eterno (cf. Hb 7,20-25; 8,1-3.6). Mas, dando-nos o seu Espírito no Batismo e nos fazendo participantes do seu mistério pascal na Eucaristia, ele nos uniu à sua missão, fazendo de nós um povo sacerdotal: “Cristo fez de nós um reino se sacerdócio para Deus seu Pai!” (Ap 1,6). Isso aparece de modo implícito na 1Cor 10,16s; 12,2-30 e em Ef 2,14-16; 4,4-6.11-13 e Cl 1,18.24; 3,15, quando São Paulo afirma que somos membros do Corpo de Cristo e todos bebemos do seu único Espírito (cf. 1Cor 12,13); aparece também em Rm 12,1-2, onde o Apóstolo nos convida a que nos ofereçamos como uma hóstia viva agradável a Deus. Aparece ainda de modo explícito na 1Pd 2,9 e no Ap 1,6, que chamam os cristãos de povo sacerdotal. Então, o único sacerdócio de Cristo em nada é afetado quando dizemos que todos nós participamos do seu único sacerdócio, pois que bebemos todos do seu único Espírito, graças ao Batismo e demais sacramentos. O sacerdócio único e perfeito de Cristo atua no mundo através do seu povo santo, que é a Igreja, toda ela povo sacerdotal. 

Mas, como no Antigo Testamento, a Igreja, novo povo de Deus, povo todo sacerdotal, tem em si um ministério próprio para tornar presente o Cristo Cabeça, Sacerdote que une a si o povo sacerdotal. Este é o ministério ordenado dos Bispos e presbíteros (os diáconos não são uma ordem sacerdotal no sentido do ministério). O nosso sacerdócio, tornando presente o Cristo Cabeça do seu Corpo que é a Igreja, coloca todo o povo sacerdotal em condições de agir sacerdotalmente. Podemos dizer assim: o Cristo total é a Cabeça (Cristo que está nos céus) e o seu Corpo (a Igreja). Ora, há na Igreja ministros que, pelo sacramento da Ordem, recebem o Espírito Santo e são configurados a Cristo Cabeça, de modo a representá-lo realmente no meio do povo santo e à frente do povo santo. É este ministério ordenado que, fazendo as vezes do Cristo Cabeça, coloca o povo sacerdotal em condição de celebrar os santos mistérios que o Senhor Jesus instituiu e nos mandou celebrar (cf. Mt 26,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,19-20; 1Cor 11,23-25). 

Agora estamos em condições de compreender o texto de Hebreus e saborear sua riqueza espiritual, pensando no sacerdócio dos ministros ordenados do Novo Testamento. 

Quem é o sacerdote, segundo o nosso texto? É um homem entre os homens, com as mesmas procuras, anseios e sedes de todos os homens; é também um discípulo de Cristo de espírito pronto e carne fraca... É um homem, portanto, “retirado do meio dos homens”. Retirado quer dizer separado, consagrado, segregado: “separado para o Evangelho de Deus” (Rm 1,1). Separado-consagrado como Jesus que, na sua Oração Sacerdotal, afirmou: “Por eles a mim mesmo eu me consagro” (Jo 17,19). Assim sendo, qualquer tentativa de mundanizar o padre com pretextos teológicos fajutas, é uma grave infidelidade ao significado do seu sacerdócio. Um dos grandes motivos da crise da Igreja atual é a forte secularização do clero! Já Paulo VI exclamava, pesaroso: “O povo de Deus não tem mais a alegria de ver os seus padres!” Mesmo o padre secular não deve ser padre secularizado... Deve exprimir o seu ser de homem como os outros e homem tirado do meio dos homens. Ele é santo, é sagrado, é consagrado, é imagem do Cristo cabeça, pastor e sacerdote eterno... 

Tirado do meio dos homens, o sacerdote é “é instituído em favor dos homens nas coisas que se referem a Deus”. É profunda e bela essa afirmação: o sacerdote não é para o sacerdote: é para a humanidade: instituído em favor dos homens. Em favor não só da Igreja, mas de toda a humanidade. Toda existência do sacerdote deve ser uma pró-existência, uma existência em favor dos, em função dos outros. Mas, note-se que há uma restrição importante: “nas coisas que se referem a Deus”. O serviço do padre não é o do advogado, do assistente social, do líder político, do líder sindical, do revolucionário social. O padre é fiel ao seu ministério quando se dedica de corpo e alma às coisas de Deus; ele serve de verdade aos homens dando-lhes aquilo que ninguém mais, a não ser ele mesmo, pode dar: Deus e sua graça, administrando os santos mistérios! Note o meu leitor que é falsa a desculpa de padre ativista, metido com política, com atividades sociais de direita ou de esquerda com a desculpa esfarrapada de que isso é um serviço ao povo de Deus. Mentira! Não é este o serviço que o rebanho espera de seus sacerdotes. A Palavra do Senhor é claríssima: “Instituído em favor dos homens nas coisas que se referem a Deus!” O resto é conversa fiada! 

Vamos adiante! Qual é o núcleo do serviço do sacerdote? Qual é o núcleo de suas atividades nas coisas que se referem a Deus? A resposta é surpreendente: “para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados”. Para desgosto de muitos teólogos e de muitos pastoralistas compulsivos, o cerne da missão sacerdotal é oferecer sacrifícios pelos pecados. Na perspectiva do Novo Testamento, o sacrifício por excelência, que sintetiza e cumpre todos os outros, é o sacrifício pascal de Cristo, tornado sacramentalmente presente em cada Eucaristia. Estando assim as coisas, podemos afirmar sem medo de errar que o padre é sacerdote para o Altar, para o sacrifício eucarístico! Aqui se dá sua maior e mais intensa identificação com o Cristo Sumo e Eterno Sacerdote; aqui o eu do padre é assumido pelo eu de Cristo de um modo misterioso, intenso e real! Mas, engana-se que reduz o sacrifício eucarístico ao Altar. É exatamente por oferecer com o povo e em nome do povo o sacrifício da Missa, que o sacerdote deve fazer da própria vida uma continuação do que celebrou no Altar. É toda a sua vida que se torna uma libação, como dizia São Paulo da sua própria existência de ministro do Evangelho. Porque oferece o sacrifício da Missa, o sacerdote vai se configurando com Cristo Sacerdote em toda a sua existência, fazendo de toda a vida, como o seu Senhor, uma pró-existência. Assim, a oferta celebrada no Altar espraia-se por toda a vida e atividade do sacerdote, de modo que ele se oferece em Cristo e com Cristo nas diversas atividades pastorais, na oração, na celebração dos santos sacramentos, no aconselhamento, na pregação da Palavra, na promoção humana do seu rebanho. Tudo se torna sacerdotal, mais ainda, torna-se sacerdotalizado! Portanto, se o padre não colocar no centro de sua vida e atividade o Altar, ele perde o foco e priva suas diversas atividades e os diversos aspectos de sua existência de um eixo que dá sentido, eficácia e realização à sua existência como cristão e como padre. 

Exatamente este estar com Cristo e, em Cristo, diante do Pai em cada Eucaristia, faz com que o sacerdote tenha muito claro que ele não é melhor que ninguém; é apenas um pobre homem, um pobre cristão, vaso de eleição e vaso de argila. Esta experiência dá-lhe entranhas de misericórdia e um sentido pastoral - melhor ainda, uma paternidade pastoral – que supera qualquer ideologia de idolatria do povo e da comunidade... Daí a afirmação da Escritura: “Sabe ter compaixão dos que estão na ignorância e no erro, porque ele mesmo está cercado de fraqueza. Por isso, deve oferecer sacrifícios tanto pelos pecados do povo quanto pelos seus próprios”. Belíssimas estas afirmações! Toda compaixão, toda caridade pastoral do padre nascem desse estar diante de Deus com Cristo na Celebração eucarística. É aí que o sacerdote se descobre ministro pobre e pecador de um povo pobre e pecador, mas inundado pela misericórdia de Deus! O zelo pastoral nada tem a ver como fogo ideológico de esquerda, nada tem em comum com a idolatria de um ativismo pastoral que endeusa a comunidade, nada tem em comum com a mania de pastoral ou “pastoralite” crônica... A atividade do padre é intensa e fecunda, mas não massificante, inquieta, tensa e panfletária... Ela é serena e alimentada por uma contínua mística de profunda união com Cristo, o Sacerdote eterno, que se oferece humildemente com toda a sua existência ao Pai por nós. 

Como conseqüência e conclusão desses pressupostos, o texto que estamos saboreando apresenta ainda duas idéias preciosas. A primeira, que é uma advertência muito oportuna hoje em dia: “Ninguém deve atribuir-se esta honra, senão quem foi chamado por Deus, como Aarão”. Em outras palavras: o sacerdócio, sendo mistério de configuração sacramental ao Cristo Servo, que dá toda a vida sacerdotalmente, não pode ser visto como um direito, um poder, uma reivindicação. Aqui se manifesta o triste engano daqueles que desejam re-inventar o sacerdócio, fabricando um “modelo” de padre do seu jeito, mais adaptado ao mundo atual. No fundo, busca-se um padre mundano, totalmente incompatível com o que Nosso Senhor espera de nós. Aqui também aparece a falta de sentido daqueles que clamam pelo sacerdócio conferido às mulheres, como um direito. Na Igreja, diante de Deus, tudo é graça; nada é direito! As mulheres nunca serão ordenadas. Isso é doutrina definida de modo irrevogável pela Igreja e quem realmente for católico não discute mais esta questão! Há vários motivos teológicos para tal. No entanto, bastaria afirmar assim: As mulheres não podem ser sacerdotes porque Cristo, Senhor livre, soberano e absoluto de sua Igreja, doador de todo bem e de toda graça, assim o determinou! Isso é fundamental para todos nós padres: o “nosso” sacerdócio de nosso não tem nada: é dom recebido, é ministério confiado à Igreja e por esta colocado nas nossas mãos como seus filhos e ministros. Não podemos dispor de tão grande tesouro a nosso arbítrio, nos servindo de algo que nos foi confiado para que sirvamos! 

A segunda idéia é o olhar contemplativo para o Sumo Sacerdote Jesus Cristo. O Autor da Carta aos Hebreus conclui esta perícope que estamos meditando, fazendo-nos mais uma vez olhar Jesus, e com duas imagens belíssimas: (1) “Tu és o meu Filho, eu hoje te gerei!” Cristo foi sacerdote porque foi fundamentalmente Filho, isto é, totalmente dependente do Pai, a ele entregue e para ele voltado. Nisto, precisamente, está o centro do seu ser sacerdotal: ele foi se deixando gerar pelo Pai, nunca tendo se procurado a si próprio, mas vivendo sempre em função do Pai e da sua santa vontade, que é, precisamente, a salvação da humanidade: “Todo aquele que o Pai me der virá a mim e eu não o rejeitarei, pois desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a daquele que me enviou, e a vontade daquele que me enviou é que eu não perca nada do que ele me deu, mas o ressuscite no Último Dia! Por isso o Pai me ama, porque dou a minha vida pelas minhas ovelhas!” (Jo 6,37; 10,17) (2) “Tu és sacerdote para sempre, na ordem de Melquisedec”. A total entrega de Jesus, até o total esvaziamento da morte e morte de cruz, possibilitou que o Pai o preenchesse com a plenitude do Espírito de Ressurreição e o assentasse, agora como Deus e homem – melhor ainda, como Filho divino feito homem -, à sua direita. É aí, na eternidade de Deus, que o sacerdócio do Filho feito homem atinge toda a criação e todos os tempos de eternidade em eternidade. Exatamente por isso, em cada lugar e em cada época, todos os que são nele batizados e recebem o seu Espírito, podem participar de sua missão sacerdotal: os leigos, pelo Batismo, a Confirmação e a Eucaristia, do sacerdócio que é comum a todos os membros do Corpo sacerdotal de Cristo; os Bispos e presbíteros, pelo dom do Espírito no sacramento da Ordem, do sacerdócio do Cristo Cabeça que se encontra no céu e se torna realmente presente na terra por seus ministros, que devem fazer o que ele fez sobre o Altar da Liturgia e viver o que ele viveu no Altar da vida.

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